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18 julho 2017

Nossas horas felizes - Gong Ji-Young

   Yujeong é uma jovem da alta sociedade coreana que, indiferente a tudo e a todos e incapaz de se entender com a própria família, não consegue encontrar um sentido para sua vida. Depois de três tentativas frustradas de suicídio, ela acaba definhando entre o álcool e o desespero. Seus familiares, por outro lado, não se esforçam para entendê-la, a não ser sua tia, a irmã Mônica, com quem sempre teve uma ligação especial. Disposta a fazer o que for preciso para que Yujeong volte a sentir vontade de viver, a freira sugere à sobrinha que as duas façam semanalmente uma visita a um preso no corredor da morte. E então elas conhecem Yunsu, um homem que anseia deixar este mundo por acreditar que só assim conseguirá se redimir de seus pecados. Apesar de sua origem humilde, ele e Yujeong têm algo em comum: um triste passado de abusos físicos e psicológicos. Aos poucos, durante os encontros na prisão, os dois jovens atormentados revelam um ao outro seus segredos mais obscuros e seus traumas do passado, criando uma conexão inesperada, que gradualmente desperta nessas duas pobres almas o desejo de viver. Mas as mãos de Yunsu estão sempre algemadas, os guardas estão constantemente por perto, e Yujeong sabe que aquelas horas felizes juntos podem ser tragicamente curtas.

    Yujeong tem três tentativas de suicídio em seu currículo e muitas frustrações pessoais. Nada parece dar certo para a mulher na casa de seus 30 anos, muito menos na parte de relacionamentos com homens, já que ela sofreu e muito, em seu passado. Atormentada pela vida perfeita que deveria levar, já que nasceu em berço de ouro, tinha um noivo com futuro promissor, e uma grande família de pessoas bem-sucedidas, Yujeong, na verdade, não aguenta as pessoas ao seu redor, principalmente sua mãe, a pessoa que tornou sua vida mais amarga e afogada no álcool. A única pessoa que é excessão, que Yujeong quer por perto, é sua tão amada tia Mônica, uma freira amorosa e muito sábia que vai ajudar a mulher a encontrar o que moverá sua vida. 
  Quando Yujeong tenta se matar novamente, tia Mônica decidi agir. Ao invés de consultas psicológicas, sua sobrinha deveria passar um tempo com a tia, fazendo algo que ela ama e faz sempre: visitar presos no corredor da morte. É então que ela conhece Yunsu, um homem com um passado extenso e doloroso e um crime totalmente hediondo em suas mãos.
    No princípio a ideia de visitar, doar tempo e oferecer amor, compreensão e solidariedade a pessoas que fizeram tanto mal é algo que não entra na cabeça de Yujeong. Como a tia Mônica conseguia fazer aquilo por tanto tempo? Como ela conseguia transformar a vida desses homens? Nada parecia compreensível. Mas, aos poucos, Yujeong começa a entender como tudo funciona, começa a perceber que ninguém no mundo é bom demais, ninguém no mundo é mal demais, e no fundo, podemos, sim, ser muito parecidos com alguém no corredor da morte. 
    Yunsu não era mal. Ele teve uma infância pra lá de difícil tendo que cuidar de seu irmãozinho mais novo, protegê-lo do mundo já que sua mãe foi embora e seu pai era um alcoólatra e drogado, que só acordava para bater em seus filhos. Aos poucos o coração de Yunsu foi endurecendo frente as injustiças que via. Eles só queriam amor, eram bons garotos. Mas a vida se encarregou de fazer com que eles tivessem uma infância terrível, Yunsu caísse na companhia de pessoas ruins e, no fim das contas, parasse onde estava, prestes a morrer. 
    Com uma narrativa alternada entre os dois personagens, podemos ver como era viver do jeito de Yujeong, suas motivações, ou melhor, desmotivações para viver, sua luta por um espaço na família e para ter um pouco de amor da mãe; ao mesmo tempo que vemos a terrível infância de Yunsu e, pouco a pouco, vamos entendendo tudo que aconteceu e o que o levou ao crime que ocorreu. A escrita da autora se revela primorosa, de muito fácil e rápida leitura, merece, de fato, o título de uma das mais famosas escritoras sul coreanas. 
    Ter um livro passado na Coreia do Sul foi novidade pra mim, e eu adorei a experiência. Veio em boa hora, pois estou apaixonada pelo país e sua cultura, ter acesso a tantas informações do país e do modo de vida dos coreanos foi totalmente enriquecedor. Fiquei grata a essa experiência, pois além de ter sido uma ótima história, em muitos aspectos, que vão desde entretenimento até lição de vida, esse livro me mostrou algumas questões do país que muitos não vêem, não sabem... como entender que, só porque o lugar é a frente de seu tempo, com uma tecnologia de ponta, não quer dizer que lá não existam favelas, lugares muito pobres e pessoas passando fome. Infelizmente não é o que podemos saber, pois o que temos acesso sobre a Coreia do Sul é, em grande parte, o estilo dos oppas em Gangnam (Gangnam Style - PSY), o bairro mais rico de Seul. 
    Me surpreendi com esse livro, porque quando o recebi não fazia ideia do que esperar. Acontece que foi uma experiência tão boa que saí dizendo aos meus amigos que leiam, e estou eu, aqui, dizendo pra vocês, meus leitores, que precisam conhecer esse livro, pois tenho certeza que, de alguma forma ele pode acrescentar algo, ou, no mínimo, incitar algumas discussões sobre a pena de morte e sua efetividade ou não. 
    A Coreia do Sul teve uma restrição da pena de morte na década de 90, mas em 2010 a execução voltou a ser praticada. Em 2015 um levantamento mostrou mais de 23 mil pessoas no corredor da morte, esperando pelo dia que a sentença se realizaria. No Brasil a pena não é permitida em constituição em outros crimes além do crime de guerra, como traição (usar armas contra o Brasil, auxiliar o inimigo), covardia (causar a debandada da tropa por temor, fugir na presença do inimigo), rebeldia ou incitação a desobediência militar, deserção ou abandono de posto, genocídio e roubo ou extorsão na zona de operações militares. A última vez que a pena de morte foi utilizada aqui foi em 1876. 


Não importa quais sejam os seus pecados, eles não são tudo o que você é!

Ser humano não quer dizer que mudamos ao encarar a morte, me diziam os olhos dela, mas, por que somos humanos, podemos nos arrepender de nossos erros e nos tornar novas pessoas.

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