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24 novembro 2012

Adulta de primeira viagem


Eu pegava o mesmo táxi todo santo dia. O escritório fechava, eu arrumava a minha maleta, sempre a última a sair, apagava as luzes e entrava no elevador. Contava os segundos até o térreo e então quando chegava em frente ao prédio, lá estava ele. O mesmo senhor de barbas brancas que parecia ter muita história pra contar.
A minha vida na cidade grande estava um tanto difícil. As pessoas indo e voltando toda hora, um formigueiro assustado com a fumaça, era o que parecia toda aquela movimentação. Dia e noite.
Não gosto dessa rádio do táxi. Essas músicas me enojam, assim como o fato de eu ser só uma pessoa, somente uma formiguinha nesse cenário todo.
O taxista olha pra mim pelo retrovisor... aquele olhar penetrante, olhar cansado, cheio de olheiras. Olhar de um dia inteiro de trabalho. Assim como o meu. Será que ele conseguia ver como eu estava desajustada nessa nova vida, nessa nova vida de adulta de primeira viagem...?
Na vida de cidade de interior era muito mais fácil ser reconhecida por alguém, em pouco tempo você já conhecia e era amiga de toda a cidade. Era melhor, você não era invisível pra nenhum deles.
        - Senhorita, qual é o número do prédio? - perguntou o taxista. Eu sabia que ele só perguntava por perguntar, na verdade ele já sabia de cor, sabia que era no bairro tal, alameda não sei o que, e número X. Sabia exatamente onde era.
        - O prédio branco com espelhos, com um jardim na frente... - era tão difícil lembrar o números desse lugar.
Retórica do destino. Eu vim pra cá justamente pra não ser só uma pessoa no mundo. Vim para ser lembrada, fazer alguma coisa importante. Obviamente eu não estava pensando em ganhar um Prêmio Nobel, ou qualquer coisa tão grandiosa assim, mas a minha idealização de reconhecimento não incluía em nenhuma parte trabalhar em um escritório, para pessoas que nem sabem o meu nome. Eu nem sei mais quem eu sou. Sei quem eu sou no espelho, sei quem eu sou comprando um lanche no McDonald's pra não ter que cozinhar um dos três pratos que eu sei. Mas não me reconheço na hora de agir, de pensar, de fazer acontecer. Talvez essa cidade tenha mudado com a minha mente, conheço histórias de pessoa que desistiram dos seus sonhos, não aguentaram a pressão.
Conheço pessoas diferentes todos os dias, todas elas iguais, substanciais, todas elas focadas em dinheiro e sucesso, todas rasas. Nenhum deles vai lembrar de mim no dia seguinte, eu não vou lembrar de nenhum deles também.
Meu pensamento foi interrompido pela parada do táxi. Lá estava o meu novo lar. Eu podia ver que o sol do finzinho de tarde ainda batia na minha janela, no primeiro andar. Deveria estar bom pra deitar e dormir. O dia foi cheio.
       - Quanto ficou? - perguntei eu, sabendo que a resposta seria a mesma que todos os dias, o taxímetro não mentia.
       - R$ 36,60 – falou o velho com um sorriso no rosto. 
       - Pode ficar com o troco.
       - Obrigado, mocinha. Boa sorte.
Boa Sorte. Era o que eu estava precisando ouvir naquele momento. Boa Sorte, ficou soando na minha cabeça.
Talvez para aquele taxista eu não era apenas uma formiguinha no meio de milhões.

2 comentários:

  1. Amei o seu texto!
    A personagem é você ou fictícia?
    Você escreve muito bem! Adorei!

    ;)
    www.xodo.blog.br

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    Respostas
    1. Obrigada *-* não, não, a personagem é fictícia haha. Muito obrigada, linda. Beijos.

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Obrigada pelo seu comentário! sua opinião é muito importante aqui no Vida em Marte, vou ler e responder com carinho ;)

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